Há 5 anos
domingo, 18 de abril de 2010
Ela
Há uns dias atrás ela já havia transitado pelo meu quarto, perto da cabeceira da cama e, de alguma forma, sua proximidade não me incomodou. Diante dessa reação, cogitei que talvez pudéssemos conviver, se não amigavelmente, pelo menos pacificamente, como seres que se respeitam ou que, pelo menos, se toleram.
Dias depois, entretanto, reconhecendo-me incapaz de sustentar tamanha mansuetude por tempo indeterminado, por fim decidi expulsá-la. Contudo, quando me dei conta, ela havia sumido. Será que adivinhava os meus intuitos? Fugiria ela de mim? Seria eu quem representaria perigo?
Sem haver encontrado as respostas, eis que a reencontro encolhidinha naquele mesmo frio e úmido lugar, fato que deve ter ocorrido por seu descuido, por ironia do destino ou a necessidade de um desfecho. Vendo-a assim parecia inofensiva, percepção nova que se desenhava, diferentemente de todas que já havia tido. Apesar disso, sou assaltada por uma cena do passado.
Para qualquer outra pessoa, o momento que deu origem a essa memória pareceria frívolo, mas não era pra mim. Não foi. Tendo ele ocorrido naquele dia, naquele contexto, no qual estava despreparada, com tantos sentimentos ainda esperando um destino, uma compreensão. Afinal, aquele foi um momento eu que eu me deparei com a frieza do coração humano pela primeira vez, com a falta de compaixão, com a crueldade despretensiosa, como se tivéssemos o direito de manipular vidas e sentimentos sem grandes repercussões.
E agora estava ela ali, novamente diante de mim, impulsionando-me a reviver tudo isso. E ela é mesmo tão pequena, sempre fora, embora por tantos anos tenha sido o estopim de um temor tão grande. Nesse momento, olhando para ela não tenho vontade de chorar, nem quero gritar por socorro. Percebo que ela não foi a grande vilã da antiga historia, foi, na verdade, a vítima. Meu desejo, então, é deixá-la ali, não protegê-la nem ameaçá-la. Agora também ela e tudo o que ela representa já não me ameaça mais.
Talvez esses antigos fantasmas ainda retornem e assombrem alguma noite insone, mas agora, só por esse instante, eu quero mais uma vez deixá-la ficar. Talvez essa seja uma forma de dizer à vida que estou mais forte e que meus pavores podem até existir, mas, certamente, agora não quero mais fugir deles.
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Não tive ou não teve?
ResponderExcluirMeus pavores ou seus pavores?
Eu gosto de brincar com as ambiguidades. =)
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